Depois de mais de uma década de trajetória, a banda Skarimbó chega a um novo momento com o lançamento de “Dunares”, disco que estreia no dia 27 de abril nas plataformas digitais. O trabalho firma um momento de consolidação artística do grupo e evidencia um estágio mais maduro de sua identidade musical, em que a força rítmica, a densidade poética e a organicidade da execução aparecem em equilíbrio raro.
“Dunares” nasce como obra de percurso. Seu título não funciona apenas como referência paisagística ou geográfica, embora a presença das dunas, tão constitutiva da experiência de viver e se deslocar em Natal, seja decisiva para a imaginação do álbum. A imagem central aqui é a da travessia. A caminhada entre escassez e abundância, aridez e horizonte, esforço e chegada. É desse movimento, ao mesmo tempo físico e existencial, que o disco retira sua espinha dorsal.
Nas palavras de Geraldo Gondim, cantor e compositor da banda, o álbum sintetiza uma reflexão antiga do Skarimbó sobre a condição humana e suas dualidades, entre altos e baixos da vida, escassez e abundância, chegadas e partidas, secura e mar. Parte importante das composições foi escrita num período em que o artista vivia em Tabatinga, território cercado por dunas, de onde veio não só a ambiência do disco, mas também a percepção mais nítida desse contraste entre dureza e promessa, entre o caminho difícil e o que se revela depois dele. Para o artista, lançar o disco também é celebrar a permanência e a reinvenção de um grupo que, ao longo de doze anos, vem sustentando sua chama criativa em meio aos desafios de produzir música autoral em Natal.
Essa dimensão simbólica encontra ressonância direta na arquitetura sonora do álbum. Segundo a produtora executiva Babi Baracho, “Dunares” representa uma virada de chave e marca uma consistente transição de amadurecimento musical e identidade do grupo. De um lado, o disco mantém o chão areado, o pulso telúrico e a energia percussiva fincada na terra e nas tradições. De outro, se abre para composições atravessadas por reflexão existencial, espiritualidade e densidade emocional. O resultado é uma obra que não se acomoda numa leitura única: ela pulsa entre o corpo e o pensamento, entre a celebração e a consciência, entre o rito coletivo e a elaboração íntima.
O processo de criação e gravação ajuda a explicar essa consistência. Parceiro de longa data da banda, Gabriel Souto acompanhou diferentes fases do Skarimbó ao longo dos anos, mas identifica em “Dunares” um método novo e particularmente decisivo. Antes da entrada em estúdio, a banda se reuniu em formação circular para uma espécie de imersão de pré-produção, num ambiente íntimo, de escuta, convivência e elaboração coletiva dos arranjos e conceitos das faixas. A mudança parece simples, mas teve efeito estrutural, pela primeira vez, o grupo pôde amadurecer ideias antes da gravação propriamente dita, num processo mais consciente, fluido e organicamente construído em conjunto.
Essa preparação se refletiu diretamente no som. Souto destaca que “Dunares” foi o disco que menos exigiu intervenções corretivas de pós-produção. Há, segundo ele, uma sensação forte de execução ao vivo, de coesão orgânica, de banda tocando com naturalidade e segurança. Essa característica não é apenas técnica. Ela revela um grupo mais consciente de si, mais entrosado, mais condutor do próprio fazer musical. Também revela uma escolha estética, mexer menos, preservar mais, deixar que a matéria do artista apareça com menos filtros e artifícios.
Gravado nos estúdios Cantilena, Suame e UFRN, com produção musical, gravação, arranjos e mixagem assinados por Gabriel Souto, além da colaboração de Magnus Brasil na produção musical, gravação e arranjos de “Miudinho” e de Walter Nazário na coprodução musical de “Ilusão de Maya”, o álbum carrega uma construção técnica cuidadosa e plural, sem perder unidade. A masterização é de Yago Marques, etapa decisiva para o acabamento final do trabalho.
Há ainda, em “Dunares”, uma dimensão de realização que ultrapassa a experiência de um simples lançamento fonográfico. A ficha técnica evidencia um trabalho robusto, coletivo e rigorosamente profissional, que mobiliza diferentes campos da criação e da produção cultural. Sob direção geral e produção executiva de Babi Baracho, com direção criativa de Nathalia Santana, direção de arte e design de Rafael Tigre, fotografia de Brunno Martins e audiovisual também assinado por Babi Baracho, o disco se apresenta como uma obra pensada em várias camadas, da música à imagem, da concepção estética à circulação. O projeto de produção do álbum conta ainda com o apoio do Sebrae/RN, a partir do Edital de Economia Criativa 2025, reforçando a consistência institucional de um trabalho conduzido com seriedade, visão e apuro em todas as etapas.
A construção visual de “Dunares” também participa ativamente da espessura conceitual do trabalho. Na leitura do diretor de arte Rafael Tigre, a capa nasce da mesma dualidade que atravessa o disco e a própria trajetória do Skarimbó: um trânsito contínuo entre o sagrado e o profano, não como polos excludentes, mas como dimensões coexistentes da experiência. A imagem do deserto, nesse contexto, não comparece apenas como cenário, mas como síntese simbólica de uma paisagem áspera, seca e aparentemente imóvel, embora secretamente moldada pelo vento, essa força sutil e persistente capaz de deslocar a matéria com o tempo. Essa ideia se manifesta no desenho gráfico da capa, em que a densidade da tipografia contracena com ornamentos finos e delicados, produzindo uma tensão visual entre peso e leveza, permanência e deslocamento. Ao centro, a figura não se oferece de maneira inteiramente explícita: preserva mistério, contemplação e uma espiritualidade que não abandona o corpo. Assim, a capa não se limita a acompanhar o disco, ela o prolonga, elaborando em imagem o mesmo equilíbrio instável entre brutalidade e delicadeza, controle e fluxo, que organiza a escuta de “Dunares”.
Isso também se revela no corpo de músicos e colaboradores envolvidos no disco. Além de Geraldo Gondim na voz e nas composições, “Dunares” reúne Gabriel Souto, Rafael Tigre, Magnus Brasil, Gabriel Max, Hugo Diógenes, Wanderley Amaro e Victor Paes, além dos corais com participação de Ian Medeiros e da participação especial de Mestre Arraia na faixa “Não Deixe a Brincadeira Terminar”. É um trabalho de muitas mãos, muitos ouvidos e muitas competências, que faz da coletividade não apenas um traço simbólico, mas um dado concreto de sua construção.
Há ainda, em “Dunares”, um valor que extrapola a dimensão estritamente musical. Geraldo Gondim chama atenção para o que significa realizar um trabalho artístico com esse grau de compromisso em Natal, cidade onde fazer cultura segue sendo, muitas vezes, um ato de insistência e invenção. Por isso, o lançamento do álbum também é vivido pela banda como celebração, conquista e reafirmação de um percurso coletivo. Depois de doze anos de caminhada, o Skarimbó parece entender que se reinventar não é romper com a própria história, mas aprofundá-la.
Para além de anunciar um novo lançamento, “Dunares” apresenta o Skarimbó em um estado mais nítido de elaboração. Um grupo que amadureceu sem perder calor, que sofisticou sua escuta sem abrir mão do chão, e que transforma paisagem, vivência e tempo em linguagem musical. No dia 27 de abril, quando o disco chegar às plataformas, o público encontrará não apenas novas faixas, mas uma obra construída para atravessar.
Pré-save: http://tratore.ffm.to/dunares
Mais informações: https://www.instagram.com/
Foto: Brunno Martins.
